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Tarcísio de Freitas está me processando por falar a verdade

  • Foto do escritor: Mário Maurici
    Mário Maurici
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Governador reage com ação judicial após críticas à falta de transparência em R$ 60 bilhões em benefícios fiscais concedidos em São Paulo


Foto colorida do Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas

Em outubro do ano passado, publiquei um carrossel no meu perfil do Instagram criticando a política de concessão de benefícios fiscais do Governo do Estado de São Paulo. A reação foi imediata, e também reveladora. Ao invés de apresentar dados, esclarecer critérios ou abrir a chamada “caixa-preta” das isenções, o governador Tarcísio de Freitas decidiu me processar na Justiça e pedir uma indenização de R$ 50 mil.


Na prática, benefícios fiscais significam autorizar empresas a não pagarem impostos. Em determinados contextos, eles podem até ser instrumentos legítimos de política econômica. O problema é a dimensão que essa política assumiu em São Paulo. E, sobretudo, a falta de transparência que a cerca.


Durante a atual gestão, o volume de isenções cresceu ano após ano. Só em 2025, o Estado deixou de arrecadar R$ 60 bilhões. Para que se tenha ideia do tamanho dessa cifra, estamos falando de um valor superior à soma dos orçamentos de áreas essenciais, como Saúde e Educação. É dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos. Dinheiro que poderia financiar políticas capazes de solucionar problemas estruturais. Dinheiro que pertence à população paulista.


E o mais grave: não sabemos quem são os beneficiados. A lista das empresas contempladas e os critérios adotados para conceder esses incentivos permanecem sob sigilo. É uma lista guardada a sete chaves. Uma política que movimenta dezenas de bilhões de reais não pode operar na sombra. Coloquei o dedo nessa ferida. Questionei. Cobrei explicações. E o que recebi foi uma ação judicial.


Os R$ 60 bilhões que deixaram de ser arrecadados em 2025 poderiam ter sido investidos na solução de problemas históricos do nosso Estado. Daria para construir, todos os anos, oito túneis submersos como o que está sendo projetado para a travessia entre Santos e Guarujá. Ou quatro linhas ferroviárias nos moldes do Trem Intercidades, conectando São Paulo a Campinas.


Mas não precisamos pensar apenas em megaobras. Esse mesmo valor permitiria pagar salários dignos aos professores da rede estadual, ampliar a oferta de escolas em tempo integral, construir novos postos de saúde, expandir linhas de metrô, tirar do papel a tarifa zero no transporte público ou executar obras estruturantes para garantir o abastecimento regular de água, afastando o risco de novas crises hídricas decorrentes do baixo nível dos reservatórios.


Essa é a escolha política que o Governo Tarcísio de Freitas fez ao abrir mão de R$ 60 bilhões em benefícios fiscais. Para 2026, a projeção é ainda mais alarmante: os benefícios fiscais podem alcançar R$ 85 bilhões. Estamos falando de uma escalada. Uma política que cresce sem debate público, sem controle social efetivo e sem que a população saiba exatamente quem ganha nem quanto ganha com ela.


Minha crítica não foi pessoal. Foi institucional. Fiscalizar o Poder Executivo é parte essencial do meu mandato como deputado estadual. É assim que funciona a democracia. O Brasil adota um sistema de freios e contrapesos que garante aos Três Poderes a responsabilidade de monitorar e limitar uns aos outros. Essa dinâmica não é um capricho; é um mecanismo de proteção da sociedade contra abusos e desequilíbrios.


Talvez incomode ser questionado. Talvez desagrade ter decisões expostas ao escrutínio público. Mas o contraditório é parte do jogo democrático. Não existe democracia sem fiscalização.


Se a população paulista fosse consultada, como você acha que preferiria ver aplicados R$ 60 bilhões? No aumento dos lucros de grandes empresários ou na abertura de 2 mil policlínicas? Na ampliação de isenções ou na criação de 5 mil escolas em tempo integral? A resposta parece evidente.


Eu confio na democracia. E não será um processo judicial que irá me silenciar. Ao contrário: ele reforça a necessidade de ampliar o debate. Já que o governador pede R$ 50 mil de indenização, eu proponho dobrar a aposta. Quero entregar a ele 100 mil assinaturas de paulistas que querem o seu impeachment.


Não se trata de disputa pessoal. É sobre saber para quem o Estado governa e defender que cada centavo público seja tratado com respeito e transparência, a favor do interesse público. Confio na força da participação popular e sei que não estou sozinho nessa briga. Mário Maurici de Lima Morais é jornalista. Foi vereador e prefeito de Franco da Rocha, vice-presidente da EBC e presidente da Ceagesp. Atualmente, é deputado estadual em São Paulo.

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